Tarifas de Trump não devem tirar navios de Salvador

Foto: Divulgação/Amanda Oliveira
Protecionismo dos Estados Unidos não sinaliza, até o momento, ameaça direta às escalas de cruzeiros na capital baiana, mas efeitos sobre economia e poder de compra podem atingir setores que dependem dos turistas.
As políticas de taxação e protecionismo comercial adotadas pelo governo de Donald Trump não devem afetar diretamente a atividade de cruzeiros em Salvador. O possível impacto sobre o turismo da capital baiana aparece em outra ponta da cadeia: no comércio e nos serviços que dependem do dinheiro deixado pelos visitantes na cidade.
Para o economista Alexandre Santana, os efeitos das tarifas sobre o turismo tendem a ocorrer de forma indireta. “As tarifas atingem setores exportadores, como calçados, tecidos, móveis, etanol e maquinário, que não são consumidos diretamente pelos turistas. O impacto no turismo ocorre pela redução do poder de compra dos norte-americanos”, explica.
Segundo Santana, o aumento dos preços provocado pelas tarifas pode fazer com que consumidores dos Estados Unidos destinem uma parcela maior da renda para produtos essenciais, reduzindo os recursos disponíveis para viagens. Ao mesmo tempo, uma eventual redução das exportações brasileiras para os Estados Unidos poderia diminuir a entrada de dólares no país e desvalorizar o real. Nesse cenário, o Brasil se tornaria mais barato para estrangeiros, enquanto viagens internacionais ficariam mais caras para brasileiros.
O impacto está em terra
A movimentação gerada pelos cruzeiros tem peso significativo na economia. Na temporada 2024/2025, o setor movimentou R$5,43 bilhões no Brasil, com cerca de 838 mil cruzeiristas, segundo estudo da Associação Internacional de Linhas de Cruzeiros (CLIA) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV).
O impacto não se concentra apenas na operação dos navios. Segundo dados da CLIA divulgados pelo Ministério do Turismo, o gasto médio por passageiro chegou a R$709,47 nas cidades de escala e a R$918,15 nos locais de embarque e desembarque. A atividade também gerou 82.985 empregos diretos, indiretos e induzidos.
Em Salvador, esse dinheiro chega a restaurantes, lojas, transportes, passeios turísticos e outros serviços utilizados pelos passageiros.
Para Santana, uma eventual desaceleração econômica internacional poderia reduzir o fluxo de cruzeiros. “Se houver uma desaceleração econômica global, existe um risco real de redução no fluxo de cruzeiros para Salvador”, afirma. O economista destaca que a atividade movimenta cerca de R$100 milhões na economia baiana e que uma redução no número de visitantes afetaria diretamente o comércio e os serviços turísticos.
Apesar da possibilidade de efeitos econômicos indiretos, a avaliação da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba) é de que as tarifas norte-americanas não estão afetando a atividade de cruzeiros em Salvador.
“As tarifas, portanto, podem gerar impactos sobre a movimentação de cargas. (...) Então, há impactos na movimentação de cargas, mas não na atividade de cruzeiros”, afirma Demetrius Moura, diretor comercial da Codeba.
A declaração diferencia o impacto sobre o comércio exterior da operação turística dos portos. As medidas tarifárias atingem cargas brasileiras destinadas à exportação, enquanto os cruzeiros seguem uma dinâmica própria.
A programação também permanece ativa. Segundo Demetrius, mesmo com um navio a menos na temporada atual, as armadoras, empresas responsáveis pela operação dos navios e pela organização das viagens, devem manter uma quantidade de passageiros próxima à de períodos anteriores. Na temporada 2023/2024, Salvador chegou a registrar 90 escalas.
Para a Codeba, mais importante do que apenas aumentar o número de passageiros é ampliar a quantidade de pessoas que iniciam a viagem na capital.
“Existem dois tipos de passageiros: o passageiro em trânsito, que passa pela cidade e retorna ao navio, e aquele que embarca no próprio destino”, explica Demetrius. Segundo ele, quem embarca em Salvador tende a chegar com antecedência, consumir no comércio e utilizar serviços locais.
Atualmente, cerca de 10% dos cruzeiristas embarcam em Salvador. Em um navio com 5 mil passageiros, isso representa aproximadamente 500 pessoas iniciando a viagem na cidade. “Isso pode ampliar o impacto do consumo na cidade, especialmente no comércio local”, afirma o diretor comercial.
A diferença entre o passageiro em trânsito e o que embarca ajuda a explicar a estratégia da Codeba. Enquanto o primeiro permanece na cidade apenas durante a escala, o segundo tende a chegar antes do embarque, podendo utilizar hotéis, restaurantes, transportes e outros serviços.
Os dados da temporada 2025/2026 também não apontam, até o momento, uma retração dos cruzeiros em Salvador associada às políticas comerciais de Trump. A capital baiana mantém uma programação expressiva, com mais de 170 mil passageiros na temporada, segundo dados divulgados pelo setor e pelo turismo municipal.
O cenário reforça que o possível efeito das tarifas não está, neste momento, na programação dos navios. A influência pode aparecer no ambiente econômico que envolve a atividade: renda, câmbio e capacidade de consumo.
Santana destaca que o câmbio pode produzir efeitos nos dois sentidos. Com o dólar valorizado, o Brasil se torna mais barato para turistas estrangeiros, enquanto brasileiros podem optar por viagens nacionais em vez de destinos no exterior.
O desafio é fazer o turista consumir
O estudo da CLIA/FGV mostra que o gasto médio é maior nas cidades de embarque e desembarque, o que reforça a importância da estratégia da Codeba de ampliar os embarques na capital.
Para o comércio de Salvador, portanto, o impacto das políticas de Trump não está necessariamente na quantidade de navios que chegam ao porto, mas na capacidade de os turistas continuarem consumindo durante sua passagem pela cidade.
Restaurantes, lojas, transportes, hotéis, passeios e outros serviços podem se beneficiar do aumento da permanência dos passageiros - ou sentir uma eventual redução no consumo.
As tarifas de Trump, portanto, não aparecem como uma ameaça direta aos navios que chegam a Salvador. O possível efeito está em terra: na economia que gira em torno dos passageiros e na capacidade de esses visitantes continuam movimentando o comércio e os serviços da capital baiana.
Escrito por Gabriela Alves.



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