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REVOLUÇÃO QUE VEIO DOS GRAMADOS: A HISTÓRIA DA COPA DO MUNDO FEMININA

David Santiago
11 de ago.
5 min de leitura
De um torneio desacreditado na China a um Mundial que chegará ao Brasil em 2027, a Copa do Mundo Feminina transformou o futebol, dentro e fora de campo

Editoria de Esportes

- Por David Santiago

Crédito: Divulgação/FIFA
Crédito: Divulgação/FIFA

Durante décadas, o futebol feminino precisou jogar uma partida que não acontecia dentro dos estádios: a luta pelo direito de existir. Quando a FIFA organizou oficialmente a primeira Copa do Mundo Feminina, em 1991, na China, o torneio ainda carregava dúvidas sobre seu potencial. Hoje, mais de três décadas depois, o cenário é completamente diferente. O Mundial se consolidou como um dos principais eventos esportivos do planeta e, em 2027, escreverá um novo capítulo justamente no país conhecido mundialmente pela paixão pelo futebol: o Brasil.


A primeira edição, realizada na China, reuniu 12 seleções. Na época, os jogos tinham 80 minutos, e não os tradicionais 90. A justificativa estava relacionada a uma visão equivocada de que as mulheres poderiam sofrer maior desgaste físico em uma partida convencional. A partir da edição seguinte, na Suécia, em 1995, as partidas passaram a ter os mesmos 90 minutos do futebol masculino.


O primeiro torneio terminou com os Estados Unidos como campeões, após vitória por 2 a 1 sobre a Noruega na final. O Brasil, ainda em uma fase inicial de construção de sua trajetória internacional, não conseguiu avançar à fase eliminatória.

Mas a competição já produzia acontecimentos que ultrapassavam as quatro linhas. Entre eles estava a participação histórica da brasileira Cláudia Vasconcelos Guedes. Em 29 de novembro de 1991, ela comandou a disputa pelo terceiro lugar entre Suécia e Alemanha, tornando-se a primeira mulher a apitar uma partida em uma competição da FIFA.


Um Mundial em transformação


Quatro anos depois, a Copa chegou à Suécia. A competição manteve 12 participantes, mas já apresentava sinais de crescimento. A Noruega conquistou o título, enquanto o futebol feminino começava a ganhar cada vez mais espaço no cenário internacional.

Foi em 1999, entretanto, que o Mundial deu um de seus maiores saltos. Realizada nos Estados Unidos, a competição passou a contar com 16 seleções. O país já havia experimentado o impacto da modalidade nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, e o interesse do público crescia rapidamente.


O Brasil também viveu ali um dos momentos mais importantes de sua história. Com uma geração marcada por nomes como Sissi, a seleção brasileira chegou à semifinal e terminou a competição na terceira colocação, até então, sua melhor campanha em uma Copa do Mundo.


Mas o grande símbolo daquela edição aconteceu na final. No Rose Bowl, em Pasadena, aproximadamente 90 mil pessoas acompanharam a decisão entre Estados Unidos e China. Depois de um empate sem gols no tempo regulamentar e na prorrogação, as americanas venceram nos pênaltis e conquistaram o segundo título mundial. O torneio levou mais de 1,19 milhão de torcedores aos estádios, um recorde de público que permaneceria até a edição de 2015.


A imagem da comemoração americana se tornou uma das mais conhecidas da história do futebol feminino. Mais importante do que o troféu, porém, foi o que acontecia ao redor dele: milhares de pessoas passaram a enxergar o futebol feminino como espetáculo, competição e produto esportivo.


Quando a história precisou mudar de endereço


A Copa de 2003 deveria ser realizada na China. Entretanto, uma epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) fez com que o país abrisse mão da organização. Os Estados Unidos assumiram novamente a sede, enquanto a China foi escolhida para receber a edição seguinte, em 2007.


Dentro de campo, a Alemanha começou a construir uma das grandes hegemonias da história da competição. As alemãs conquistaram o título em 2003 e repetiram a façanha em 2007, tornando-se a primeira seleção a vencer duas Copas consecutivas.


Em 2011, o Mundial desembarcou novamente na Europa, desta vez na Alemanha. A seleção japonesa protagonizou uma das maiores surpresas da história do torneio ao conquistar o título diante dos Estados Unidos, nos pênaltis, após empate por 2 a 2.


O Canadá recebeu a competição em 2015, edição vencida novamente pelos Estados Unidos. Quatro anos depois, em 2019, foi a vez da França sediar o Mundial. As americanas confirmaram sua força e conquistaram o quarto título da história, consolidando-se como a seleção mais vencedora da competição até aquele momento.


Um Mundial de novas fronteiras


Em 2023, a Copa do Mundo Feminina atravessou uma nova fronteira. Pela primeira vez, dois países dividiram a organização: Austrália e Nova Zelândia. A competição passou de 24 para 32 seleções, aproximando-se do formato que já era utilizado no Mundial masculino. O aumento no número de participantes também trouxe novas histórias: sete seleções conquistaram sua primeira vitória em Copas do Mundo, enquanto três países africanos chegaram às oitavas de final, um recorde para o continente. Pela primeira vez, seleções das seis confederações da FIFA conseguiram vencer pelo menos uma partida na mesma edição.


No final, a Espanha levantou a taça pela primeira vez. Mais do que definir uma nova campeã, o torneio mostrou o alcance que o futebol feminino havia alcançado desde aquela primeira edição, disputada três décadas antes.


E o Brasil entrou em campo antes mesmo da bola rolar


Se a história da Copa do Mundo Feminina começou na China, um novo capítulo será escrito no Brasil. Em 17 de maio de 2024, durante o Congresso da FIFA realizado em Bangkok, o Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027. A candidatura brasileira recebeu 119 votos, contra 78 da candidatura conjunta formada por Alemanha, Bélgica e Países Baixos. Com a escolha, o país se tornou o primeiro da América do Sul a receber o Mundial feminino.


A edição de 2027 será a décima da história da competição. O torneio está programado para acontecer entre 24 de junho e 25 de julho, reunindo novamente 32 seleções.

Oito cidades brasileiras receberão partidas: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Entre os palcos escolhidos estão estádios que já fazem parte da memória do futebol brasileiro, como o Maracanã e o Mineirão, além da Arena Fonte Nova, em Salvador.


“Penso muito mais no quanto vai agregar para a nossa modalidade no Brasil, e quanto mais meninas a gente pode transformar em grandes atletas. Podemos crescer como referências para novas meninas com sonhos. Ter uma Copa do Mundo no Brasil aproxima cada vez mais o esporte das nossas pequenininhas", disse Kerolin, jogadora da seleção brasileira e do Manchester City à FIFA.


Para o Brasil, a escolha representa muito mais do que sediar um grande evento esportivo. É também uma oportunidade de ampliar a visibilidade das jogadoras, estimular a formação de novas atletas e fortalecer estruturas que ainda enfrentam desafios históricos.


Da desconfiança à grande vitrine


Em pouco mais de 30 anos, a Copa do Mundo Feminina percorreu um caminho que o futebol masculino levou muitas décadas para construir.

A competição começou com 12 equipes, partidas de 80 minutos e uma estrutura ainda experimental. Passou por momentos de crescimento, enfrentou mudanças de sede, conquistou públicos cada vez maiores e chegou a 32 seleções.


No caminho, surgiram protagonistas de diferentes gerações: jogadoras, treinadoras, árbitras e torcedoras que ajudaram a transformar a modalidade.

Entre elas está Cláudia Vasconcelos, que em 1991 abriu uma porta que parecia impossível. Ao apitar aquela partida entre Suécia e Alemanha, a brasileira não estava apenas conduzindo um jogo. Estava ocupando um espaço que, até então, havia sido reservado aos homens.


A Copa do Mundo Feminina deixou de ser uma experiência para provar se o público se interessaria pelo futebol praticado por mulheres. O interesse foi comprovado. Os estádios responderam. As transmissões cresceram. As seleções se desenvolveram. Novos países passaram a sonhar com uma vaga.


Em 2027, será a vez do Brasil, e, quando a bola rolar, não será apenas mais uma Copa, será a primeira vez que a América do Sul receberá o maior palco do futebol feminino mundial. Será também a oportunidade de um país que construiu parte de sua identidade esportiva em torno do futebol, e olhar para suas próprias mulheres e reconhecer uma história que há muito tempo pede espaço.


A bola que começou a rolar na China, em 1991, chegará ao Brasil carregando 36 anos de histórias, conquistas, barreiras quebradas e sonhos.


Crédito: Imagem gerada por IA
Crédito: Imagem gerada por IA

 
 
 

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