QUEM FALOU FARAÓ?
Entre o Olodum, Margareth e Luciano Gomes, de quem é “Faraó”?

“Eu falei Faraó...”
Poucas frases são tão imediatamente reconhecíveis no Carnaval de Salvador. Basta o primeiro chamado para que milhares de vozes completem o refrão, independentemente de quem esteja no palco. Ao longo de quase quatro décadas, “Faraó – Divindade do Egito” deixou de ser apenas uma música para se transformar em patrimônio afetivo do Carnaval baiano.
Mas justamente por ter atravessado gerações, vozes, trios elétricos, blocos e diferentes gravações, a história da canção também passou a produzir uma espécie de embaralhamento sobre sua origem.
Afinal, de quem é “Faraó”?
A resposta exige separar três personagens que a memória popular acabou misturando: Luciano Gomes, o compositor; o Olodum, instituição que está na gênese da música e de sua estética; e Margareth Menezes, a intérprete cuja gravação ajudou a transformar a canção em fenômeno nacional.
E essa distinção não diminui nenhum deles. Pelo contrário: ajuda a contar a história completa.
Antes de ser hit, “Faraó” nasceu como composição
Os registros disponíveis apontam Luciano Gomes dos Santos como compositor de “Faraó – Divindade do Egito”.
Em entrevista concedida à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, Luciano relembrou a criação da música e explicou que a composição nasceu a partir do tema escolhido pelo Olodum para o Festival de Música e Artes do Olodum (FEMADUM) de 1987: a figura do faraó e o Egito Antigo.
Segundo reportagem do Correio, Luciano levou pouco mais de uma semana para desenvolver os versos, a melodia e o refrão que se tornaria um dos mais conhecidos da música baiana. A letra, extensa e pouco convencional para um hit carnavalesco, mergulhava na mitologia egípcia e, ao mesmo tempo, estabelecia uma conexão entre a temática africana, a identidade negra e o Pelourinho.
O próprio compositor descreveu a dificuldade de encontrar um refrão que conseguisse condensar aquela narrativa complexa.
Foi desse processo que nasceu o “Faraó, ê, Faraó” que, décadas depois, continuaria sendo cantado por multidões.
O Olodum não é um detalhe nessa história
Se Luciano Gomes é o nome que aparece como compositor da obra, afirmar que “Faraó” não é do Olodum seria igualmente simplificar demais a história.
A canção nasceu dentro do ambiente cultural do bloco afro. O tema foi escolhido pelo Olodum para o FEMADUM, e a música ganhou forma justamente naquele contexto de efervescência cultural do Pelourinho.
O próprio Olodum registra em sua história oficial que a banda surgiu em 1987 e estreou no mercado fonográfico com o álbum “Egito Madagascar”, disco que ficou marcado pelo sucesso de “Faraó – Divindade do Egito”.
A gravação do Olodum também está documentada nas plataformas musicais. O álbum “Egito Madagáscar” aparece datado de 1987, com “Faraó” entre suas faixas, e os créditos identificam o Olodum como intérprete e Luciano Gomes dos Santos como compositor. O fonograma foi lançado pela Warner Music Brasil.
É aí que começa a diferença entre a autoria da obra e a identidade de quem a tornou conhecida.
O Olodum foi parte essencial da origem artística, cultural e fonográfica de “Faraó”. Mas isso não transforma automaticamente a instituição em autora da composição.
E onde entra Margareth Menezes?
Margareth Menezes ocupa outro lugar, também decisivo.
Em 1987, a cantora recebeu o convite de Djalma Oliveira para participar da gravação de “Faraó”. A própria biografia oficial de Margareth registra que ela interpretou naquele ano a música de Luciano Gomes, em gravação que vendeu mais de 100 mil cópias.
A história contada pelo Correio acrescenta um detalhe importante: Djalma Oliveira teria ouvido a música durante o Carnaval, procurado o Olodum e chegado até Luciano Gomes. Foi então realizada uma gravação que ajudaria a levar a composição para além dos circuitos do bloco.
A partir dali, Margareth passou a carregar “Faraó” como uma das músicas mais emblemáticas de sua carreira.
Não é por acaso que, décadas depois, parte do público passou a identificar a música diretamente com a cantora.
Em 2024, durante apresentação no Pelourinho, a própria Margareth explicou publicamente que “Faraó” era uma música gravada por ela em 1987 e identificou Luciano Gomes como compositor, destacando também a temática trazida pelo Olodum.
Ou seja: a própria trajetória da artista ajuda a demonstrar que intérprete e compositor são papéis diferentes.
O sucesso criou várias “donas” afetivas para a mesma música
O fenômeno não parou em Margareth.
“Faraó” passou a ser interpretada por diferentes artistas e grupos ao longo dos anos. A música ganhou novas gravações e entrou definitivamente no repertório do Carnaval brasileiro.
A base de dados consultada identifica diferentes fonogramas da mesma obra, mantendo Luciano Gomes dos Santos como compositor. Entre eles estão gravações atribuídas a Margareth Menezes, Banda Mel e outros intérpretes.
É justamente essa multiplicação de gravações que pode confundir o público.
Uma pessoa que ouviu “Faraó” pela primeira vez na voz de Margareth pode naturalmente acreditar que a música é dela. Outra, que conheceu a canção através dos tambores do Olodum, pode associá-la exclusivamente ao bloco.
As duas memórias são legítimas.
O que não pode ser confundido é memória afetiva com autoria.
O que significa, juridicamente, ser o titular de uma música?
A legislação brasileira estabelece uma diferença importante entre a obra musical e sua gravação.
A Lei nº 9.610/1998 protege os direitos autorais e também os chamados direitos conexos. O Ministério da Cultura explica que esses direitos alcançam não apenas autores, mas também intérpretes, produtores fonográficos e outros agentes envolvidos na cadeia musical.
O próprio ECAD faz essa distinção de maneira objetiva: obra musical é a composição, enquanto fonograma é a gravação daquela obra. Uma mesma composição pode, portanto, gerar vários fonogramas diferentes.
Na prática, isso significa que “Faraó” pode ser cantada por Margareth, pelo Olodum ou por qualquer outro artista autorizado sem que cada nova interpretação altere automaticamente a autoria da composição.
Nos registros consultados, a obra aparece com Luciano Gomes dos Santos como compositor e Universal Music Publishing Ltda. como editora.
Já uma gravação específica pode ter outros titulares relacionados aos direitos conexos e ao fonograma.
Essa diferença é fundamental.
Uma coisa é ser o autor da música. Outra é ser o intérprete. Outra é ser o produtor ou titular de uma determinada gravação.
Por que isso importa em um evento comemorativo?
É justamente por isso que uma eventual celebração dos 40 anos de “Faraó” precisa ter cuidado com a forma como a história é apresentada.
A presença do Olodum em um evento comemorativo é absolutamente coerente com a história da música. O grupo está no centro do contexto cultural em que a obra nasceu, participou de sua primeira trajetória fonográfica e ajudou a criar a sonoridade que tornou a canção reconhecível.
Da mesma forma, a participação de Margareth Menezes é incontornável. Sua voz está ligada à popularização de “Faraó” e à memória que milhões de brasileiros construíram em torno da música.
Mas existe uma terceira figura que não pode desaparecer dessa fotografia: Luciano Gomes.
Comemorar “Faraó” sem deixar claro quem compôs a obra pode produzir justamente o efeito contrário ao que uma celebração deveria fazer: em vez de preservar a memória, pode reforçar uma confusão histórica.
E existe ainda uma questão cronológica.
As fontes consultadas apontam 1987 como o ano de lançamento de “Faraó”, incluindo o primeiro álbum do Olodum, “Egito Madagascar”. Isso significa que os 40 anos da canção serão completados em 2027.
Uma música pode ter vários intérpretes. Autor, não.
O caso de “Faraó” é emblemático justamente porque mostra como funciona a construção de um clássico popular.
Luciano Gomes escreveu.
O Olodum deu à música o ambiente cultural, a força percussiva e uma de suas gravações fundamentais.
Margareth Menezes ajudou a transformar a composição em um fenômeno de alcance nacional e a incorporou definitivamente à sua carreira.
Depois deles, vieram muitos outros intérpretes.
Nenhum desses fatos precisa apagar o outro.
Ao contrário: a grandeza de “Faraó” está exatamente nessa soma.
Mas, quando a história é contada, é preciso chamar cada personagem pelo seu nome e atribuir a cada um o papel que efetivamente desempenhou.
Porque o Olodum pode ser parte indissociável da identidade de “Faraó”.
Margareth pode ser uma de suas vozes mais emblemáticas.
E o público pode continuar cantando a música como se ela sempre tivesse existido.
Mas, quando alguém perguntar “quem falou Faraó?”, a história precisa lembrar também de quem primeiro escreveu.
Jornalista: Maria Eduarda Santos Santana Maria Dourado



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