Bahia pode ganhar espaço com expansão das exportações para o Brics
Atualizado: 18 de ago.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros reforçaram a necessidade de o país ampliar sua presença em novos mercados e reduzir a dependência de parceiros comerciais tradicionais. Nesse cenário, o Brics surge como uma alternativa para absorver parte das exportações nacionais. No entanto, especialistas avaliam que essa mudança não acontecerá de forma rápida e exigirá investimentos em infraestrutura, logística e acordos comerciais.0,
Para o economista e presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), Edval Landulfo, a capacidade do bloco de compensar as perdas provocadas pelas medidas norte-americanas depende diretamente do tipo de produto exportado.
"Essa capacidade do Brics em absorver exportações afetadas por medidas protecionistas dos Estados Unidos varia drasticamente de acordo com a natureza do produto e também do horizonte temporal. Quando falamos de commodities e energia, essa capacidade é alta. Já nos produtos manufaturados, ela é baixa no curto e médio prazo", explica.

Segundo o economista, países como China e Índia continuam ampliando a demanda por alimentos, matérias-primas e combustíveis, o que abre espaço para produtos brasileiros como grãos, minério de ferro, carnes e etanol.
"O Brics possui alta capacidade de absorver matérias-primas e alimentos. Se houver necessidade de redirecionar parte da produção brasileira, países como China e Índia conseguem atender essa demanda com relativa facilidade", afirma.
Por outro lado, Landulfo destaca que a indústria brasileira pode enfrentar mais dificuldades para substituir o mercado norte-americano.
"Máquinas, equipamentos, calçados, móveis e outros produtos industrializados encontram um cenário diferente, porque China e Índia já possuem uma produção muito forte de bens manufaturados de baixo e médio custo", ressalta.
Além das oportunidades, o economista chama atenção para obstáculos estruturais que ainda limitam o avanço das exportações brasileiras para os países do Brics. Entre eles estão os custos logísticos, a distância dos mercados asiáticos e a falta de acordos comerciais mais abrangentes.
"O tempo de transporte marítimo para a Ásia pode chegar a 40 dias, enquanto para os Estados Unidos varia entre 10 e 15 dias. Isso aumenta os custos e reduz a competitividade dos produtos brasileiros", destaca.
Ele também lembra que o Mercosul ainda não possui acordos de livre comércio com importantes parceiros do bloco, como China e Índia, além das barreiras sanitárias e burocráticas que dificultam o acesso a esses mercados.
"Existem exigências sanitárias, certificações específicas e processos que, muitas vezes, levam anos para serem concluídos. Isso acaba atrasando a entrada de novos produtos brasileiros nesses países", explica.
Na avaliação de Landulfo, a Bahia pode ser uma das beneficiadas caso o Brasil consiga ampliar sua participação comercial no Brics. O estado possui forte produção de soja, milho, algodão, celulose, frutas, produtos químicos e petroquímicos, segmentos que apresentam potencial de crescimento em mercados asiáticos e do Oriente Médio.
"A Bahia possui forte presença nos setores químico, petroquímico, de celulose e do agronegócio. Reduzir a dependência das compras norte-americanas protege a economia estadual contra oscilações políticas e comerciais", afirma.
Segundo ele, essa mudança também exige investimentos em infraestrutura logística, especialmente na ampliação da capacidade dos portos e na conclusão de obras consideradas estratégicas.
"Projetos como a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e o Porto Sul são fundamentais para reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade dos produtos baianos no mercado internacional", pontua.
O economista também avalia que os impactos sobre a geração de empregos dependerão da qualidade da pauta exportadora.
"Se a diversificação ficar concentrada apenas em commodities, o efeito sobre o emprego será moderado. Mas, se conseguirmos ampliar as exportações de produtos processados, químicos e industrializados, haverá impacto positivo na geração de empregos e na renda", diz.
Sobre o plano de R$ 130 milhões anunciado pela ApexBrasil para incentivar a abertura de novos mercados, Landulfo considera que a iniciativa representa um passo importante, mas insuficiente para resolver os desafios estruturais do comércio exterior brasileiro.
"Esse pacote é uma medida de promoção comercial e inteligência de mercado, não de transformação estrutural. Ele ajuda a aproximar compradores e vendedores, mas não substitui investimentos em logística, crédito, infraestrutura e acordos comerciais", afirma.
Para o presidente do Corecon-BA, o atual cenário reforça a necessidade de o Brasil adotar uma estratégia permanente de diversificação das exportações.
"Precisamos sempre manter a diversificação de mercados em mente. A qualquer momento podemos enfrentar novas tarifas ou mudanças nas regras do comércio internacional. Quanto mais diversificados forem nossos parceiros, menor será a vulnerabilidade da economia brasileira", conclui.
Por Marcos Vitório



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