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Além da Dupla Ba-Vi: a história revolucionária do Esporte Clube Ypiranga, o “Mais Querido” da Bahia

Lucas Figueiredo
11 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 18 de ago.

Foto: Sede do Ypiranga
Foto: Sede do Ypiranga

Por Lucas Figueiredo

Quando se fala em futebol baiano, é quase inevitável pensar imediatamente na rivalidade entre Bahia e Vitória. A dupla, que há décadas domina o cenário esportivo do estado, tornou-se sinônimo do futebol da Bahia.


Mas muito antes de essa hegemonia se consolidar, Salvador já vivia uma intensa paixão pelo futebol, e um dos maiores símbolos desse sentimento era o Esporte Clube Ypiranga.


Conhecido como “Mais Querido”, o clube construiu uma trajetória que ultrapassa as quatro linhas. Sua história está ligada à resistência, à inclusão social e à luta contra as barreiras raciais e econômicas que marcaram os primeiros anos do futebol brasileiro.


Foi também o clube de grandes personagens da cultura e da história baiana, como Jorge Amado, Dorival Caymmi, João Gilberto e Irmã Dulce. E teve em Popó, o “Craque do Povo”, um de seus maiores ídolos.


A semente da resistência


A história do Ypiranga começa em 17 de abril de 1904, apenas 16 anos depois da assinatura da Lei Áurea, em um Brasil que ainda carregava profundas marcas da escravidão e da desigualdade racial.


Na Bahia, assim como em outras partes do país, o futebol ainda era fortemente associado às elites. Os clubes tradicionais reuniam principalmente homens das classes mais abastadas, enquanto a população negra e os trabalhadores enfrentavam dificuldades para ocupar esses espaços.


Foto: Elizeu Sousa

Foi nesse cenário que um grupo de jovens excluídos dos clubes tradicionais decidiu criar o próprio espaço dentro do esporte. Nascia o Sport Club Sete de Setembro. Dois anos depois, em 7 de setembro de 1906, a agremiação passou a se chamar Esporte Clube Ypiranga, nome que entraria definitivamente para a história do futebol baiano. Desde o início, porém, o caminho não foi fácil.


Marginalizado pela estrutura oficial do futebol e sem os recursos financeiros disponíveis aos clubes das elites, o Ypiranga precisou encontrar maneiras improvisadas de sobreviver. A precariedade era tamanha que seus jogadores chegaram a treinar utilizando bolas improvisadas com meias. O que faltava em dinheiro sobrava em paixão.


O clube que virou a voz das multidões


Foto: EC Ypiranga
Foto: EC Ypiranga

A identificação popular não demorou a acontecer. Em uma Salvador marcada pela desigualdade social e racial, o Ypiranga representava aqueles que durante muito tempo, não encontravam espaço nos ambientes mais tradicionais da cidade.


Entre as décadas de 1910 e 1940, o clube

alcançou enorme popularidade e chegou a ser considerado o time de maior torcida da Bahia. Por isso, ganhou um apelido que traduzia a relação construída com seus torcedores: “Mais Querido”.


O Ypiranga não reunia apenas trabalhadores, moradores das regiões periféricas e frequentadores das feiras livres. O clube também conquistou intelectuais, artistas e importantes personagens da sociedade baiana.


Entre seus admiradores estavam nomes que ajudaram a construir a identidade cultural do Brasil. O escritor Jorge Amado foi um dos grandes apaixonados pelo clube. O universo popular retratado em suas obras dialogava diretamente com a identidade que o Ypiranga carregava.


Também estavam ligados ao clube nomes como Dorival Caymmi, João Gilberto e Irmã Dulce, posteriormente canonizada como Santa Dulce dos Pobres.

Nas arquibancadas do Ypiranga, futebol, cultura popular e identidade baiana se encontravam.


Popó, o “Terrível” que enfrentou o Fluminense


Foto: Popó
Foto: Popó

Se o Ypiranga representava uma revolução fora de campo, dentro dele havia um jogador capaz de transformar essa identidade em espetáculo.

Seu nome era Popó.


Atacante do clube entre as décadas de 1920 e 1930, Popó tornou-se um dos maiores símbolos do futebol popular baiano. Habilidoso e decisivo, ganhou o apelido de “Craque do Povo” e passou a ser tratado como uma das grandes estrelas do futebol estadual.


Um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória aconteceu em 1926, quando o Ypiranga enfrentou o tradicional Fluminense, do Rio de Janeiro, em um amistoso.


O time baiano venceu por 5 a 4, em uma partida memorável que teve Popó como grande protagonista.


A atuação do atacante teria causado tamanha repercussão que jornais cariocas destacaram o resultado com uma manchete que entrou para o imaginário do futebol baiano: “Popó 5 x 4 Fluminense”.


Mais do que uma vitória sobre um clube de grande prestígio nacional, o resultado simbolizava a força que o futebol baiano começava a demonstrar diante dos grandes centros esportivos do país.


Jorge Amado e a declaração de amor ao Ypiranga


Foto: EC Ypiranga
Foto: EC Ypiranga

A relação entre o escritor Jorge Amado e o clube ajudou a transformar a história do Ypiranga também em um patrimônio da cultura baiana.


Em uma declaração que sintetiza a importância histórica da agremiação, o escritor exaltou a tradição do clube e sua ligação com o povo:

“Outros clubes do futebol baiano podem ser mais ricos, mais prósperos, mais badalados na imprensa, donos até da maior torcida e de maior número de títulos recentes. Nenhum de gloriosa tradição quanto o E. C. Ypiranga, o time de Popó, antigamente poderoso, milionário, invencível, supercampeão…”

Para Jorge Amado, a história construída pelo clube era maior do que resultados e troféus. Era uma história de pertencimento. E foi justamente essa identificação que fez o Ypiranga permanecer na memória de gerações de baianos.


Os títulos e o último grande capítulo


Foto: EC Ypiranga
Foto: EC Ypiranga

O crescimento de Bahia e Vitória ao longo do século XX modificou profundamente o mapa do futebol baiano. Ainda assim, o Ypiranga já havia construído uma história impossível de apagar.


Com 10 títulos estaduais, o clube permanece entre os maiores campeões do Campeonato Baiano.

Sua última grande conquista no futebol profissional aconteceu em 1951.


Naquele ano, o Ypiranga conquistou o Campeonato Baiano e também levantou o título do Torneio Norte-Nordeste, superando o Remo na decisão.


Era o encerramento de um dos períodos mais gloriosos da história do clube.

Mas a importância do Ypiranga nunca esteve restrita ao número de troféus.


Muito além do futebol


Foto: EC Ypiranga
Foto: EC Ypiranga

O Esporte Clube Ypiranga nasceu em uma época em que o futebol ainda era um território profundamente marcado pela desigualdade. Jovens negros e trabalhadores que encontravam portas fechadas em clubes tradicionais criaram a própria instituição e, com ela, construíram um espaço de representação.


O clube tornou-se símbolo de uma Salvador que queria ocupar seu lugar no esporte e na sociedade.


Foi o time de Popó. Foi o clube admirado por Jorge Amado. Foi uma das paixões de figuras fundamentais da cultura baiana. E, sobretudo, foi o time de milhares de torcedores que encontraram nele uma identidade.


Por isso, contar a história do Ypiranga é contar também uma parte da história da Bahia.

Antes de a Dupla Ba-Vi dominar as arquibancadas, o “Mais Querido” já havia mostrado que futebol não era apenas uma disputa por títulos.


Era também espaço de pertencimento, resistência e transformação social.

E talvez seja justamente por isso que, mais de um século depois de sua fundação, o Ypiranga continue ocupando um lugar especial na memória do futebol baiano.

 
 
 

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